sábado, 16 de junho de 2018

A lógica é o lobo da lógica


Dezessete anos dessa Existência (quase dezoito!) e ainda não encontrei o seu sentido. Que ultraje! Quem ela pensa que é? Nos jogando nesse poço sem fundo só pra rir de nossa ridícula tentativa de escalada. Enraivecedor! Absurdo! Estou indignado. Desesperado, até.


Ora, quantos sentimentos negativos! Eu gosto de pensar, mas não quero transpor mutretas pessimistas do meus pensamentos para minha vida vivida, meu diálogo ativo e interventor com o mundo. Se é pra usar a cabeça, terei que pensar de algum outro jeito, de preferência um que não me deixe tããão insatisfeito com minha impotência existencial. E aí, vai achar ruim? Porque, se tratando do fim maior, eu tô cagando pra encontrar a verdade suprema de tudo. Quero só me sentir bem, e desenvolver ideias me satisfaz.


Ah, mal comecei a escrever e já afundei o pé no acelerador da metalinguagem. Vamos, Miguel, foco. Eu estava falando sobre a Existência, com E maiúsculo (por respeito). Terei que fofocar um pouco sobre essa coisa, supor, achar, brincar de detetive expondo tudo que pensei.


Então faça um café, sente-se na varanda, tome cuidado pra não tropeçar no título ou na imagem, infle o colete apenas depois de sair do avião e vamos lá.

Tudo é uma coisa, até o “tudo”, o “é”, o “uma” e principalmente o “coisa”!


A coisa nunca é tão simples quanto parece ser. E me parece que nós temos um anseio, e discutivelmente uma capacidade que o atenda, de cavar sempre mais fundo, até chegar onde não haja possibilidade aparente de prosseguir. Não existe contentamento com um limite para a profundidade e a complexidade de nossas explicações existenciais. Isso seria determinar o fundo de um buraco que sempre parece poder ser maior. 


Mas não é que o buraco seja infinito, acabe, dê voltas ou qualquer outra coisa. Na verdade, enquanto a Terra, a qual se cava de diversas formas, tem 12756,2 km de diâmetro, um satélite natural e um punhado de macacos pelados e confusos, não sabemos muita coisa a respeito do lugar no qual se passa a escavação metafórica. Pra falar a verdade, não sabemos nem se estamos cavando, se o buraco existe, se nós existimos, e tenho certeza que com algum esforço mental, você conseguirá ficar mais confuso do que já está.


Normal. Qualquer metáfora, explicação, lei ou conjectura que aborde o sentido maior das coisas possui uma clara falha. Ela está dentro do sistema, ou seja, sua validade enquanto ideia que fundamente a existência depende do fato de ela realmente ser válida. A própria ideia de “validade”, bem como todos outros mecanismos de língua, significado e sentido que utilizamos para (tentar) explicar as questões da vida são dependentes da forma como realmente funcionam tais questões. Ora, mesmo o conceito de “funcionamento” entra nessa gama de consequências que usamos para explicar as causas. Todas as palavras desse texto entram. Tudo entra.


E acabo de perceber que as coisas talvez tenham ficado mais confusas ainda. Outra vez, nada fora do normal. Mas pense comigo: gostamos muito de usar a lógica para explicar as coisas, certo? Atribuímos à lógica o caráter de verdadeira. De fato, se a lógica for seguida à risca, e se conhecermos todos os fatores envolvidos, não parece haver jeito de se estar errado. Pode-se até dizer que, se não conhecemos todos os fatores e tiramos conclusões equivocadas, a falha não está na lógica, mas sim em algum outro lugar que com certeza renderia inúmeras linhas de reflexão.


Pois bem. O que nos garante que a lógica está certa? A lógica! Simples. Faz sentido. A lógica faz sentido. Mas só se formos lógicos. Percebeu o problema? É, de certo modo, uma falácia de ciclo vicioso, a “conhecidíssima” petição de princípio. Só está certo se você partir do pressuposto de que está certo. É um réu que julga o próprio caso. Não apenas julga, como desenvolve e aplica as leis. Olha só! Vai que a totalidade que é a existência faz tudo que também sofre, ou seja, aquilo que a fundamenta também é uma parte sua. Mas não pense muito sobre essa última frase que escrevi. Não agora, porque ela chegou um pouquinho adiantada, tanto no texto quanto em minha mente. Continuando:


Se a explicação é uma extensão dependente daquilo que é explicado, lascou-se. Bugou. Tela azul total. Porque eu, particularmente, ainda não consigo lidar muito bem com essa forma de pensar. Quem sabe alguém já lidou por mim, e só preciso ler, e talvez tirar minhas conclusões. Lutei uma boa luta e cheguei relativamente longe, eu acho. Foi um bom exercício mental. Mas parece que não consigo mais cavar esse buraco.


A não ser que... bem, aquela coisa que eu disse sobre a existência simultaneamente fazer e sofrer? Parece só um refraseamento de “a explicação é uma extensão daquilo que é explicado”. Contudo, há, perceptivelmente, uma pegada diferente. Tratar as coisas como “explicação versus explicado”, com relação de dependência unilateral, é uma hierarquização de legitimidade questionável. Ao perceber que o explicado e a explicação não estão em patamares diferentes, mas que são formas distintas de encarar o mesmo todo, tenho a sensação de que as coisas se encaixam. Somem os problemas, pois se não cobramos do conhecimento a superioridade em relação a aquilo que é conhecido, há um obstáculo a menos para conhecer o que é supremo (ou seja, que não admite nada como superior). Pensando agora, essa visão certamente já foi discutida por aí de forma trocentas vezes mais detalhada que aqui. Não obstante, o que impera agora é minha aceitação. Sei que ainda vou pensar mais sobre isso no futuro, mas estou satisfeito pelo momento.


Claramente, se eu quiser me prender à noção paradoxal de que não há como se explicar nada estando dentro do sistema, como se fazê-lo fosse errado, eu posso. Você também. No meu caso, acho que não vou, mas o equilíbrio certo entre ceticismo e certeza nos faz acreditar em qualquer coisa. Um dia posso acordar e ver mais sentido na ideia antiga, ou até perder a confiança, com razão ou não, na nova. Só sei que agora não vejo mais pra onde correr, ou melhor, cavar. “Ah, será que lutei uma boa luta”? Bah, vou ficar pensando nisso? Eu hein. Vou é comer, relaxar. Chega desse negócio de pensar, de escrever, dessa metáfora da escavação. Chega, pás e terra, vou curtir minha paz na Terra. Chega de me preocupar só porque tudo é tão arbitrário.


Ah, mas tão arbitrário...

2 comentários:

  1. Valeu Jackson, tentei te acompanhar nessa viagem ao centro de tudo (ou nada), mas certamente me perdi. O que importa é que foi maneiro, continue que está sendo legal!

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    1. Olá, desconhecido/a! Pode me chamar de Miguel, mas reconhecer o rosto do nosso grande Jackson é suficientemente maneiro para que você me chame assim sem nenhum problema.

      No mais, obrigado pelo feedback!

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