Hoje, o Brasil empatou com a Suíça em um jogo, no mínimo,
frustrante. O esforço brasileiro não foi suficiente para superar a marcação
helvética, e o empecilho aumentou consideravelmente com a agressividade
excessiva da defesa adversária e a má performance do árbitro. Olhe bem, o jogo
por si só já seria um bom tema para um texto. Contudo, quero falar aqui de uma
outra coisa. É que sou metade argentino. De sangue.
E você já deve estar pensando: “ah, esse moleque vai falar
de xenofobia, vai relativizar a Seleção, enfim, vai ser um pé no saco. Vai
Brasil!”.
Calma lá. Se seu pensamento é esse que eu supus, saiba que
eu, na verdade, penso de forma similar. É que eu ainda não contei a historinha
inicial, não cheguei no tema principal, não desenvolvi ideias e nem concluí de
forma instigante. Pra isso, eu preciso escrever, ou pelo menos tentar. E, a
seguir, vocês poderão presenciar os frutos de minha tentativa.
Em contraste com o último, esse texto não vai ter o mesmo
humorzinho irônico no final da introdução. Estou um pouco mais assertivo hoje.
Sabe como o Neymar deu aquele beijo na bola antes de bater uma falta? Minha
situação é similar. É hora do show, e tenho que engatar com confiança.
Mas, pra evitar ter o mesmo resultado frustrante que o
menino Ney, vou começar diferente. Não vai ter beijinho. Pra desempatar esse
jogo, vou apostar em uma palavrinha mágica, que talvez vocês não usem com a
frequência que deveriam. Meus caros leitores, Simbora!
Alguns se perdem na razão... Mal sabem que a vida é louca!
Ok, o efeito não foi tão animador quanto eu esperava. Mas
não serei abatido! Vamos lá.
Como eu havia dito, sou metade argentino por laços
familiares. Em clima de Copa, tento não sair espalhando isso por aí. Mas meus
amigos sabem, zoam. E eu torço para minha segunda nação sem nenhum problema. É
claro que sou primordialmente brasileiro, e me vejo como tal. Com isso em mente,
hoje usei uma camisa da Argentina, mesmo tendo torcido pela nossa nação. Nada
mais que uma brincadeira, uma forma de rir amigavelmente daquilo que não dá
para se mudar.
O que me intrigou foi a existência de brasileiros que, mesmo
não possuindo relação alguma com nossos “hermanos”, torcem pelo rival
histórico. Deixam até de torcer pela própria nação, usando aqueles bons
argumentos de que “Copa serve pra controlar as massas”, “a CBF é corrupta”, “não
escolhi nascer aqui”, “não tenho obrigação de torcer” e blá blá blá blá.
Ridículos, quase todos diriam. Mas tem algo estranho aí. Esses argumentos não
são inerentemente errados. Eu não duvido que exista um tipo de pão e circo
contemporâneo, nem discordo da existência de graves problemas na CBF. Não
bastasse isso, reconheço que o patriotismo é uma construção arbitrária, e que
torcer parece estar mais para um direito do que para um dever. Então por que
diabos eu, bem como quase todos ao meu redor, vemos essa atitude com ares de ridicularidade?
Pode-se dizer que seja falta de lógica. Que nós temos
paixões, vontades e apegos que, embora façam muito sentido emocional, sejam
completamente alheios à razão. De fato, mesmo sob uma ótica menos cética que
aquela do meu primeiro texto, o emocional parece tão... arbitrário. Será,
então, que somos insuficientemente racionais?
Digo que não. E vou além: falta racionalidade, sim, mas por
parte daqueles que desafinam do coro contente de nossa torcida, por dois
principais motivos.
“Hã? Como assim? Não foi você mesmo que falou, mais pra
cima, que os argumentos deles fazem sentido?”
E fazem! Continuam fazendo. Mas sempre há argumentos válidos,
seja qual for a ideia defendida. Veja bem, uma característica importante da
lógica é que ela precisa assumir que algumas coisas são verdadeiras. Só se tira
conclusões com premissas, e isso é meio óbvio. Mas veja também que a partir do
momento em que premissas são necessárias, não se trata mais apenas de usar as
premissas de forma correta. Precisamos, também, encontrá-las. Saber quais são
elas. Não todas, já que isso seria humanamente impossível. Mas é sempre importante
considerar a situação da forma mais total possível, pois se não fizermos isso, alguém
pode fazer por nós e demolir nossas teses. Convenhamos, é melhor pensar antes
de agir do que ser corrigido após a merda já ter sido feita.
E é com isso em mente que aponto o primeiro erro dos
diferentões. É que só porque a emoção (englobando todo nosso lado impulsivo,
instintivo, “ilógico”) não faz sentido, é arbitrária e às vezes danosa, não se
pode descartá-la. Ela existe, sempre existiu e continuará existindo. Bater de
frente não dá certo. Pior que quaisquer 4,7 mil substâncias tóxicas, instigar
esse conflito pode causar niilismo, depressão e bandas emo.
Uma metáfora interessante que acaba de subir a minha cabeça
é a seguinte: imagine a vida de um casal, sendo você um dos integrantes.
Naturalmente, haverá conflitos de interesses, muitas vezes manifestados em
discussões. A questão é: mesmo que você esteja obviamente certo em inúmeros
casos, vale a pena insistir sempre? Devemos lembrar que não é possível se
divorciar da realidade.
Vale a pena tentar desconstruir tudo que é ilógico usando a
razão? Vale a pena sempre impor sua visão de mundo publicamente?
Como saber se o esforço será útil, e mais pessoas se tornarão
adeptas desse seu jeito de ver as coisas? Pois me parece que, em grande parte das
vezes, nada muda. Ou pior: são gerados raiva, desconforto, indignação e
repulsa, coisas que já temos demais no mundo. Ah, dá para abrir mão de estar
certo uma vez ou outra, pelo bem da relação. Pelo bem da nossa vida.
É claro, também não dá para simplesmente ficarmos calados.
Na real, toda interação humana pressupõe a transgressão do espaço alheio, seja
um soco, uma discussão, um “bom dia” ou até mesmo a presença de um indivíduo no
campo de visão do outro. Tá invadindo minha visão por quê, surucucu? Respeite
meu espaço!
Como saber, então, se devemos destoar abertamente do próximo
ou não? É aí que entra um mecanismo complexo, um aparelho pouco compreendido
por todas ciências. Se você acha que o cinema é a sétima arte, é porque não
conhece essa aqui. Me refiro, é claro, ao desconfiômetro.
(Começa uma música animada. Entra um locutor.)
Este potente aparelho trará inúmeros benefícios para sua
vida social, como:
- Evitar que você se torne chato e inconveniente pra dedéu;
- Garantir mais aceitação alheia quanto a suas ideias;
- Reduzir em até 90% a chance de ser vítima de um
linchamento generalizado;
- E muito, muito mais!
Tá esperando o quê? Utilize já o seu! É de graça. Sério.
Pelo amor de Deus, você provavelmente tem isso guardado em algum lugar. Use. Todo
mundo sai ganhando.
Infelizmente, essa solução milagrosa não funciona sempre.
Ninguém lembra de usar 100% das vezes que precisa, e quando usa, nada garante
que dará certo. Afinal, se trata de um achismo baseado em experiência própria,
não um leitor de mentes (ainda!).
OK, foi explicado o primeiro dos motivos pelos quais os brasileiros
anti-hexa falham em sua construção lógica. Não podemos ignorar o lado
irracional das coisas, mesmo que seja claramente uma construção social sem
sentido. Às vezes nem é uma construção. Pode ser só algo inerente ao humano.
Quem sabe! Eu não. O que eu (acho que) sei é que, independente de sua origem, o
caráter passional da vida existe em todos nós, e, quem sabe, fora de nós
também. Ele não some nem morre, nos segue até o fim. Então é melhor aprender a
lidar.
Já dizia Vinícius de Moraes, em uma de suas melhores
músicas: “Você que não gosta de gostar, pra não sofrer, não sorrir e não
chorar; você vai ver, um dia, em que fria você vai entrar!”
É fogo, irmão.
..........
Não, eu não me esqueci. Eu disse que existiam dois motivos.
Pra falar a verdade, o segundo é bem simples de ser explicado, ainda mais
quando sua compreensão já foi ampliada por toda reflexão acerca do primeiro.
Pode ser tratado como uma extensão. É o seguinte:
PARA DE SER CHATO! Já entendi, você prefere não torcer, acha
que patriotismo é ruim, não sente isso e blá blá blá patati patatá funiculí
funiculá. Mas considere duas opiniões minhas. A primeira: será
que sua rebeldia provém de uma real convicção de que sua ideia é melhor, mais benéfica e
mais correta? Ou será uma necessidade de ser diferente, talvez uma satisfação
em simplesmente se sentir guardião da razão oculta e da lógica? A segunda é um conselho: se você, como praticamente todo mundo, se
importa com a existência do próximo, não planeja abdicar de sua vida social e gostaria
de levar uma vida mais leve, abra suas gavetas e comece a usar o
desconfiômetro. Vale a pena.
Pois eu, particularmente, prefiro moderação. Não vou ser
super cético, relativizando tudo, mas também não vou ser um imbecil que não
pensa. É torcer pelo hexa sem esquecer das mazelas do nosso país. É zoar
argentinos sem ser um xenófobo. É ter uma mentalidade crítica sem esquecer de
curtir a vida.
Buscar esse equilíbrio é difícil, e estou longe de terminar
de falar sobre o tema.
Mas o que importa é que eu prefiro tentar. Acho que todo
mundo devia. Pode ser que nossos pontos de equilíbrio sejam distintos. Normalmente
são.
Só não se esqueça que a vida vai muito além de simplesmente estar
certo.
Ah, e #rumoaohexa. VAI BRASIL!

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