Dezessete anos dessa Existência
(quase dezoito!) e ainda não encontrei o seu sentido. Que ultraje! Quem ela
pensa que é? Nos jogando nesse poço sem fundo só pra rir de nossa ridícula
tentativa de escalada. Enraivecedor! Absurdo! Estou indignado. Desesperado,
até.
Ora, quantos sentimentos
negativos! Eu gosto de pensar, mas não quero transpor mutretas pessimistas do
meus pensamentos para minha vida vivida, meu diálogo ativo e interventor com o
mundo. Se é pra usar a cabeça, terei que pensar de algum outro jeito, de
preferência um que não me deixe tããão insatisfeito com minha impotência
existencial. E aí, vai achar ruim? Porque, se tratando do fim maior, eu tô
cagando pra encontrar a verdade suprema de tudo. Quero só me sentir bem, e
desenvolver ideias me satisfaz.
Ah, mal comecei a escrever e já
afundei o pé no acelerador da metalinguagem. Vamos, Miguel, foco. Eu estava falando sobre a Existência, com E maiúsculo (por respeito). Terei que
fofocar um pouco sobre essa coisa, supor, achar, brincar de detetive expondo tudo que pensei.
Então faça um café, sente-se na
varanda, tome cuidado pra não tropeçar no título ou na imagem, infle o colete apenas depois
de sair do avião e vamos lá.
Tudo é uma coisa, até o “tudo”, o “é”, o “uma” e principalmente o “coisa”!
A coisa nunca é tão simples quanto parece ser. E me parece que nós temos um anseio, e discutivelmente uma capacidade que o atenda, de cavar sempre mais fundo, até chegar onde não haja possibilidade aparente de prosseguir. Não existe contentamento com um limite para a profundidade e a complexidade de nossas explicações existenciais. Isso seria determinar o fundo de um buraco que sempre parece poder ser maior.
Normal. Qualquer metáfora,
explicação, lei ou conjectura que aborde o sentido maior das coisas possui uma
clara falha. Ela está dentro do sistema, ou seja, sua validade enquanto ideia
que fundamente a existência depende do fato de ela realmente ser válida. A
própria ideia de “validade”, bem como todos outros mecanismos de língua,
significado e sentido que utilizamos para (tentar) explicar as questões da vida
são dependentes da forma como realmente funcionam tais questões. Ora, mesmo o
conceito de “funcionamento” entra nessa gama de consequências que usamos para
explicar as causas. Todas as palavras desse texto entram. Tudo entra.
E acabo de perceber que as coisas
talvez tenham ficado mais confusas ainda. Outra vez, nada fora do normal. Mas
pense comigo: gostamos muito de usar a lógica para explicar as coisas, certo?
Atribuímos à lógica o caráter de verdadeira. De fato, se a lógica for seguida à
risca, e se conhecermos todos os fatores envolvidos, não parece haver jeito de
se estar errado. Pode-se até dizer que, se não conhecemos todos os fatores e
tiramos conclusões equivocadas, a falha não está na lógica, mas sim em algum
outro lugar que com certeza renderia inúmeras linhas de reflexão.
Pois bem. O que nos garante que a
lógica está certa? A lógica! Simples. Faz sentido. A lógica faz sentido. Mas só
se formos lógicos. Percebeu o problema? É, de certo modo, uma falácia de ciclo
vicioso, a “conhecidíssima” petição de princípio. Só está certo se você partir
do pressuposto de que está certo. É um réu que julga o próprio caso. Não apenas
julga, como desenvolve e aplica as leis. Olha só! Vai que a totalidade que é a
existência faz tudo que também sofre, ou seja, aquilo que a fundamenta também é
uma parte sua. Mas não pense muito sobre essa última frase que escrevi. Não
agora, porque ela chegou um pouquinho adiantada, tanto no texto quanto em minha mente.
Continuando:
Se a explicação é uma extensão
dependente daquilo que é explicado, lascou-se. Bugou. Tela azul total. Porque eu, particularmente, ainda não
consigo lidar muito bem com essa forma de pensar. Quem sabe alguém já lidou por
mim, e só preciso ler, e talvez tirar minhas conclusões. Lutei uma boa luta e
cheguei relativamente longe, eu acho. Foi um bom exercício mental. Mas parece
que não consigo mais cavar esse buraco.
A não ser que... bem, aquela
coisa que eu disse sobre a existência simultaneamente fazer e sofrer? Parece só
um refraseamento de “a explicação é uma extensão daquilo que é explicado”. Contudo,
há, perceptivelmente, uma pegada diferente. Tratar as coisas como “explicação
versus explicado”, com relação de dependência unilateral, é uma hierarquização
de legitimidade questionável. Ao perceber que o explicado e a explicação não
estão em patamares diferentes, mas que são formas distintas de encarar o mesmo
todo, tenho a sensação de que as coisas se encaixam. Somem os problemas, pois
se não cobramos do conhecimento a superioridade em relação a aquilo que é
conhecido, há um obstáculo a menos para conhecer o que é supremo (ou seja, que não admite nada como superior). Pensando agora, essa visão
certamente já foi discutida por aí de forma trocentas vezes mais detalhada que aqui.
Não obstante, o que impera agora é minha aceitação. Sei que ainda vou pensar mais sobre
isso no futuro, mas estou satisfeito pelo momento.
Claramente, se eu quiser me
prender à noção paradoxal de que não há como se explicar nada estando dentro do
sistema, como se fazê-lo fosse errado, eu posso. Você também. No meu caso, acho
que não vou, mas o equilíbrio certo entre ceticismo e certeza nos faz acreditar
em qualquer coisa. Um dia posso acordar e ver mais sentido na ideia antiga, ou
até perder a confiança, com razão ou não, na nova. Só sei que agora não vejo
mais pra onde correr, ou melhor, cavar. “Ah, será que lutei uma boa luta”? Bah,
vou ficar pensando nisso? Eu hein. Vou é comer, relaxar. Chega desse negócio de
pensar, de escrever, dessa metáfora da escavação. Chega, pás e terra, vou
curtir minha paz na Terra. Chega de me preocupar só porque tudo é tão
arbitrário.
Ah, mas tão arbitrário...

Valeu Jackson, tentei te acompanhar nessa viagem ao centro de tudo (ou nada), mas certamente me perdi. O que importa é que foi maneiro, continue que está sendo legal!
ResponderExcluirOlá, desconhecido/a! Pode me chamar de Miguel, mas reconhecer o rosto do nosso grande Jackson é suficientemente maneiro para que você me chame assim sem nenhum problema.
ExcluirNo mais, obrigado pelo feedback!