E lá vou eu. Outra vez abordando
assuntos complexos e profundos.
Uau! Que filosófico! Posso botar umas frases na legenda da minha foto de hoje?
À vontade.
Como sempre, antes de partirmos
para o que interessa, tenho que fazer algumas considerações, brincar um pouco,
soltar uns raios de sol antes da tempestade que está por vir. Mas pode relaxar,
viu? O tema de hoje não é tãããão abstrato.
“É complexo”? Com certeza. “É legal
de ler”? Descubra. “Vou entender tudo”? Nem eu entendo.
Só saiba que é mais um voo com
rumo mais ou menos definido para o qual os convido. Mas antes, um anúncio
importante.
GUARULHOS INTERNACIONAL AVISA: Preconceitos, falácias e babaquice
devem ser despachados no check-in e devidamente marcados com a etiqueta “frágil”.
Na bagagem de mão, são permitidos apenas curiosidade e o mínimo de
alfabetização. Lembramos gentilmente que aversão a pensar é um item de porte
proibido. Nem pensar!
Não vou precisar anunciar outra
vez em inglês, né?
Desejamos a todos uma ótima viagem.
Acertar é humano. Acertar demais é sinal de que algo não está certo!
“Doze homens e uma sentença”
(originalmente “12 angry men”) é um filmaço de 1957. Ele retrata o processo de
discussão e votação de um júri popular americano acerca da condenação de um
suposto assassino. Uma verdadeira aula de argumentação e compreensão do próximo.
Mais precisamente, a obra exalta
a grande dificuldade que temos de utilizar a lógica em situações humanas. Digo
“situações humanas” para me referir à solução de problemas complexos demais
para serem resolvidos matematicamente, de forma minuciosa e detalhada. São
discussões corriqueiras, de relacionamentos, de Facebook, de júri (como no
filme), profundas, ideológicas, superficiais, e até internas.
Como eu já disse em outras
instâncias, parece que apenas estar certo não é difícil o suficiente. Ainda
temos que saber aplicar, expor, usar o velho desconfiômetro... E se um humano
já é complicado, imagine doze. Lembre então que esses doze têm que refletir
sobre o que foi dito por promotores, advogados, testemunhas... uma tremenda confusão de gente.
Porém (ai, porém!), há ainda um
caso diferente, para não dizer pior. O da vida real! Não temos doze pessoas
discutindo o que foi dito por outras cinco ou seis. Temos 7,6 bilhões lidando a
toda hora com o que todas outras 7,6 bilhões pensam e dizem (inclusive nós
mesmos!). E desses tantos aí, mais de 3 bilhões têm acesso à internet.
Tenso, né? Acho que não preciso
dizer mais nada. Os comentários em redes sociais já dizem por mim.
...
OK, somos complicados, as
verdades são relativas e blábláblá. E DAÍ?
É que, dentro desse contexto,
tive uma ideia interessante. É algo que, quando compreendido, abre nossas
mentes e nossos corações. Algo que nos blinda, mais que qualquer outra coisa,
de falácias argumentativas e arrogância intelectual. E tira a graça de quase
todos memes políticos.
Me refiro, meus caros, ao fardo
da razão.
E agora, obviamente, tenho que
explicar o que isso significa. Rumbora!
Se a quantidade de pessoas
existentes está na casa dos bilhões, a quantidade de situações acerca das quais
temos (ou podemos ter) opiniões ultrapassa os trilhões, quatrilhões e quem sabe
tredecilhões. São infinitas, e nos cercam a todo momento. Eu mesmo já havia
dito em “A lógica é o lobo da lógica”: tudo é uma coisa... e interpretamos e julgamos
tudo (que vemos). Cada pequeno detalhe da vida, seja um objeto, uma ideia, uma
piada ou mesmo um “oi” tem um poder incrível: o de ser percebido, sentido,
enfim, apreendido por nós, seres sensoriais.
Ok? Captou? Cada pequeno detalhe
é algo que percebemos, que sentimos. Tudo.
E, naturalmente, já que somos
indivíduos, temos uma tendência fortíssima a compreender, julgar, interpretar
(etc, etc) as coisas de nossa forma individual. Simples!
E aí vem a grande dificuldade da
situação. Somos indivíduos, é claro. Mas também existem outros indivíduos com
suas próprias formas de perceber cada pequena (ou grande) coisa da vida.
Nesse sentido, acerca de cada
fato que circunda a existência, travamos uma espécie de batalha judicial, ora
realizando a função de advogado, ora de promotor, sempre no embate com algo ou
alguém.
Mas bem... lembra do filme do
qual eu estava falando? Nele, percebe-se que quanto mais “obviamente certo”
alguém está, maior é a chance de cometer um equívoco. O caso era tão claro
que... OK, ok. Não vou estragar o filme. Veja você mesmo.
Percebemos, então, que estar
certo traz uma consequência. Quanto mais alto fores, melhor é a vista... e mais
alto é o tombo; A traição só existe onde havia confiança; Com grandes poderes
vêm grandes responsabilidades, e por aí vai. Esse é o tal do fardo da razão:
quando estamos certos, há uma espécie de obrigação moral em estar mais certo
ainda, em errar menos coisas bobas, menos detalhes.
“Ora, mas por quê? Todos temos o
direito de errar!”
É claro, companheiros. Mas quem
está “mais obviamente” certo receberá a confiança de quem nele acredita. Por
isso, pequenos erros passam mais facilmente despercebidos, sejam eles de
coerência interna ou mesmo da aplicação das ideias (da lei, da punição, etc,
quando se trata do exemplo jurídico). E infelizmente, essas pequenas falácias e
invalidades argumentativas podem estragar todo benefício que viria da aplicação
devida de uma ideia que estava, no plano geral, certa. De que adianta comprovar
que um crime aconteceu se o procedimento não resolver da melhor forma o
problema?
Eficiência completa em resolver
tudo é impossível, obviamente. Sempre há uma forma melhor de lidar as coisas.
Sempre há alguma ideia nossa que possa melhorar...
E LÁ VEM! A outra principal
consequência do fardo da razão, que só existe porque somos mais de uma pessoa.
É que se o outro lado da discussão for mal-intencionado, tal vil espírito poderá se
utilizar de equívocos infelizes de forma a tentar refutar TODO seu argumento. A
famosa falácia lógica: parecer certo quando se está... ham... “mais ou menos”
certo. Quer dizer, não o suficiente para realmente provar todo o ponto que se
quer provar.
O fardo da razão traz, então, uma
responsabilidade pelo acerto, tanto para garantir a boa aplicação de ideias
quanto para evitar que bons argumentos sejam desmontados por falácias.
Isso é um peso com o qual todos
lidamos ao mesmo tempo. Cometemos erros em decorrência desse fardo, e nos
aproveitamos do erro alheio para, ignorando a plena lógica, mantermos nossas
visões sobre as coisas.
É isso que, para mim, justifica a
perda da graça de memes sobre política e ideologia. É que esse tipo de
comunicação, no geral, é bastante reducionista, quando não falaciosa na cara de
pau.
Sim, toda linguagem tem que ser
um pouquinho reducionista, para caber na folha de papel ou nos cinquenta
minutos de aula. Mas os memes, quando combinados com a efemeridade das redes
sociais, potencializam a discussão ao dar espaço para declarações curtas e
grossas, tanto do advogado quanto do promotor. Dá-se, então, margem para que
tudo seja criticado, e com razão. Uma pessoa de direita critica a invalidade
lógica de um meme de esquerda. Tal pessoa compartilha um meme de direita
igualmente inválido, que logo tem sua falha apontada. É um quebra-quebra eterno
no qual todos estão, simultaneamente, certos e errados. E ninguém resolve nada,
ninguém passa a adotar a razão. Ninguém muda.
Ai ai. Seres humanos.
Pois é.
Reconhecer a existência do fardo
não me blinda dele, mas certamente me ajuda a buscar uma lógica verdadeiramente
racional (ignorando questões filosóficas mais profundas, como “a lógica é
paradoxal”, “é impossível estar certo”, dentre outras mais chatas e pouco práticas).
“Mas Miguel, não foi você mesmo
que disse que estar certo não é tudo?”
E não é! Mas algumas questões,
principalmente as ideológicas, pressupõem uma tentativa máxima de se utilizar a
razão. Não é que nem torcer para o Brasil ou possuir determinado padrão de
comportamento. É algo sobre o qual deliberamos de forma mais... deliberada,
embora subjetiva. Nesses aspectos, busco sempre o que faça sentido.
Por isso, tento fazer com que meu
tempo gasto discutindo tais questões se vá dialogando com pessoas que desafiam
meu senso de certo e errado. Amigos que defendem a ditadura militar, o
anarcocapitalismo, o governo Temer, o governo Lula e até a seleção de 2014
(essa é difícil!). Pois falar com quem concorda comigo não levará a nenhuma
descoberta. Quem sabe uns detalhes aqui e ali. Mas se há alguma incoerência
camuflada em nossa forma de pensar, a chance de nenhum de nós ter percebido é
alta. Já meu amigo destoante... esse provavelmente tem algo novo a dizer. E quase
sempre tem! Pelo menos aqueles com quem escolho discutir.
Bem... no final, é claro que
devemos lutar por aquilo em que acreditamos. Sem isso, ninguém faria nada! A arbitrariedade
é inevitável. Mas se vamos discutir ideias, é bom lembrar que tudo aquilo que
achamos estar certo pode simplesmente não estar, desde opiniões sem fundamento
até a mais enraizada verdade científica.
Não deixe de tomar uma posição
sobre as coisas da vida. Nem se quisesse (muito!) você conseguiria.
Mas quando alguém falar merda,
não mande esse alguém calar a boca de imediato. Apenas escute-o um pouco antes
de fazer isso.
E mesmo que tenha ignorado quase
tudo, apenas esperando para mandá-lo ao raio que o parta, você ainda vai se
surpreender.
Garanto que vai.

10!
ResponderExcluirObrigado!!
Excluirboa
ResponderExcluirValeus!
Excluir10! (agora s)
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